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No outro dia ia com pressa. Estacionei, desliguei o carro e subi eu os vidros, como faço sempre antes de sair, para garantir que fica bem fechado. O meu pequeno, atrás, na cadeirinha, começou a chorar repetindo "eu queria… eu queria…" sem terminar a frase. Eu, sem olhar para ele, quase sem parar: "vá, vamos".
Quando me apercebi do que se passava, já chorava há um bom bocado. E a essa altura o choro já não era pelo vidro.
O que se passava, e eu não via
O que ele queria era subi-lo ele. Era uma daquelas coisas dele de que eu ainda não me tinha apercebido: estava em plena fase do "sozinho", afirmando-se através de pequenos gestos. Para ele, subir aquele vidro com a própria mão era importante por uma razão muito concreta — estava a aprender a fazê-lo sozinho, e eu, sem dar conta, não lhe tinha dado a oportunidade.
Mas isso era só o início do problema. Eu estava a olhar para o relógio, e um adulto que olha para o relógio não está a olhar para a criança. O pequeno nota-o antes de o saber nomear: nota-o quando falas sem olhar para ele, no "vá, vamos" sem pausa.
E a partir daí, aquilo por que chora muda. Já não é o vidro. É que estou ao lado dele sem estar.
Por que a pressa parte quase tudo
Numa criança pequena, o cérebro ainda em construção não lhe permite acalmar-se sozinha quando uma emoção transborda. Aquilo de que ela precisa nesses momentos é pedir emprestado o cérebro adulto de quem tem por perto — chama-se co-regulação, e basicamente significa que a tua calma se lhe contagia porque a dela ainda está por construir. Se quiseres o detalhe do que se passa dentro da cabeça dela, conto-o no artigo sobre o que acontece no cérebro durante uma birra.
Mas essa calma adulta cai por causa de algo muito concreto: a pressa.
Quando ando com pressa, a minha voz vai mais depressa e o meu olhar está dois passos à frente, já fora do carro, no que vem a seguir. Nesse estado não consigo emprestar ao meu filho a calma de que ele precisa, porque eu próprio não a tenho.
E é um bocado absurdo: a pressa acende a birra e, ao mesmo tempo, é o que me deixa sem recursos para a acompanhar. É por isso que tantas tempestades rebentam nas transições —ao sair de casa, ao sair do parque quando já vamos atrasados—. A pressa não as causa exatamente, mas piora-as.
Trinta segundos, ou não
Naquele dia, se tivesse saído do carro, me tivesse baixado à altura dele e dito "eu sei, querias subi-lo tu, não dei conta", teríamos saído da situação em trinta segundos. O que demorámos foi bastante mais. Não sei se vinte minutos, não tinha o cronómetro, mas pareceu-me eterno. O que sei é que não foi porque o meu filho estivesse mais difícil naquele dia. Foi porque eu, para poupar trinta segundos, deixei de o acompanhar.
O conto A Casa da Calma conta isto mesmo do outro lado. O Lobinho sopra e parte coisas não por ser mau, mas porque por baixo do sopro há um pequeno que quer pertencer e ninguém se baixou para o ver. A história não pede ao lobo que sopre menos. Pede ao mundo que pare um segundo e lhe pergunte do que precisa.

Adaptação de Os três porquinhos
A Casa da Calma · Onde os sopros não assustam
O Lobinho chega ao parque com muita vontade de brincar. As outras crianças estão tão absortas nos seus próprios jogos que não reparam nele. Quando a sua frustração fica grande demais, o Lobinho sopra — e as coisas partem-se. Mas quando finalmente chora, algo muda: os outros aproximam-se. E afinal todos estavam, de alguma forma, sozinhos.
Ler esta história infantil na app SemillitaO que vou aprendendo (devagar)
Nem sempre vou conseguir. Haverá dias em que a pressa é real e só dou conta quando o choro já chegou. E ainda hoje me sai o "vá, vamos" sem pensar, antes de me virar para olhar para ele. Saber isto que acabei de contar não mo tira de repente, mas o aviso salta com mais frequência, e isso ajuda.
Quando me lembro a tempo —quando saio do carro e me baixo à altura dele— a coisa acalma mais cedo. Nem sempre se resolve depressa, mas pelo menos os dois sabemos que o outro está e, sobretudo, ele sabe que o quero compreender.
Um abraço,
Adrián

