Dois anos e meio sem dormir: a rotina que finalmente funcionou

Adulto acompañando a su hijo pequeño hasta dormirse con una luz tenue, momento real de rutina nocturna sin idealizar
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Até aos dois anos e meio, o meu filho pequeno nunca dormiu mais de duas ou três horas seguidas. E não me refiro a uma fase má. Refiro-me a dois anos e meio.

Ao acordar, pedia contacto: era preciso passeá-lo ao colo. Se eu tentava sentar-me, chorava. E se chorava muito tempo, às vezes acabava por vomitar em cima de si. Desde que deixou a mama, adormecê-lo era comigo, e ao final não dormia ninguém em casa — exceto o irmão mais velho, que dorme como um anjo. Cheguei a ter o meu próprio ciclo de sono em pedaços. Houve um ponto em que, simplesmente, já não conseguia mais.

Conto isto porque hoje tem três anos e meio e há uns dois meses que dorme a noite toda. Se alguém me lê de onde eu estive: há saída. Provavelmente não a que imaginas, mas há.

O ritual não se desenha: decanta-se

Pelo caminho aprendi uma coisa que não esperava: a rotina de sono que de facto funciona quase nunca é a que escolhes a frio, mas a que sobrevive às noites más, ao teu próprio esgotamento e aos meses em que nada parece resultar. O que fica depois de tudo isso é a tua rotina real.

E por baixo de qualquer rotina há um mecanismo que não é o que costumamos imaginar. Uma criança não adormece só porque está cansada: o cansaço está lá, mas se o corpo continua em alerta não se solta. O que lhe dá permissão para se deixar ir é a repetição, o sinal de que o dia terminou. Quando os mesmos gestos acontecem na mesma ordem todas as noites, o corpo reconhece a sequência e começa a soltar-se ainda antes de chegar à cama.

Para um sistema nervoso pequeno, o previsível é o seguro. E só a partir da segurança é que uma criança baixa a guarda e se deixa cair no sono.

É assim que dormimos em casa, sem alardes

O que ficou de toda a travessia é uma rotina pouco fotogénica. Não a vais ver recomendada em nenhum manual. Mas funciona connosco, e agora dormimos todos. É mais ou menos assim, e nem sempre por esta ordem:

  • Jantar cedo. Se o jantar atrasa, a noite parte-se. É a única coisa inegociável.
  • Ir para o quarto. Brinca um bocado no tapete, quase sempre sozinho, enquanto eu estou perto sem fazer muito barulho.
  • Arrumar antes de apagar a luz. Aviso-o de que já é hora, deixo-o arrumar sozinho e às vezes dou uma mãozinha. É o nosso sinal de que o dia se acaba.
  • Biberão na cama e o meu pescoço ao alcance. Adormece a beliscá-lo. Sim, ainda com biberão aos três e meio.
Criança pequena a arrumar os brinquedos antes de dormir enquanto um adulto a acompanha com calma, um momento real de rotina noturna

Sobre o último ponto serei honesto, porque aqui é fácil sentirmo-nos julgados: o biberão nesta idade não é o que se aconselha, e eu sei. Mas a parentalidade real vai resolvendo as coisas por ordem de urgência, não pela ordem do manual. Dormir era a batalha; essa outra virá a seu tempo. Conto a rotina inteira, parte imperfeita incluída, precisamente para não me juntar à coleção de rotinas idealizadas que tanto mal fazem quando estás no meio da tempestade.

Cada rotina é a rotina de alguém

Conto-te a minha precisamente para que não a copies. A tua terá outras peças: um peluche, uma canção, uma cadeira de baloiço, uma mão nas costas. Não importa qual. Importa que se repita, e que tu estejas em calma quando acontece.

Isto último pesa mais do que parece. Tanto faz que sejas a mãe, o pai, a avó ou o avô: para adormecer, à criança não lhe basta que estejas presente. Precisa também que estejas em calma, porque o seu sistema nervoso se sintoniza com o teu. As noites em que eu chegava ao quarto com os nervos no limite eram, por acaso, as piores. Não era acaso.

E mais uma coisa, caso te sirva de consolo: que uma criança precise de contacto para adormecer não é um defeito a corrigir à pressa. Em boa parte do mundo dormir perto, em contacto, é o normal e ninguém o vive como um problema. Que o teu o peça não significa que falte algo por fazer. Significa, quase sempre, que é pequeno.

Quando me pede uma história

Às vezes, já com o biberão e a luz apagada, pede-me uma história. Nem sempre; também não é parte fixa do ritual. Quando pede, lemo-la juntos com o candeeiro aceso. Há uma que parece feita para esse momento exato: A Fada das Estrelas. O seu subtítulo di-lo melhor do que eu: «A magia de estar juntos». Fala precisamente disso: de uma fada que perde a varinha e descobre que as estrelas se acendem na mesma, porque o que realmente importava era o tempo de estar todos juntos cada noite. Que é, mais ou menos, o que eu demorei dois anos e meio a perceber.

A Fada das Estrelas

A Fada das Estrelas

A magia de estar juntos

Estrelinha é uma fada jovem que todas as noites reúne os animais da floresta para lhes contar uma história antes de dormir. Quando perde a sua varinha mágica e não consegue acender as estrelas, descobre que a verdadeira magia nunca esteve num objeto, mas no ritual de estar juntos todas as noites, nas suas palavras e no amor que partilha com a sua comunidade.

Ler esta história infantil na app Semillita

Se quiseres aprofundar o porquê de tudo isto, conto-o com mais calma em porque importa mais o que fazes do que aquilo que usas e em o que fazer quando o ritual se quebra.

Um abraço, e muita força se esta noite te calhar das difíceis.

— Adrián, da Semillita

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