Esta reflexão eu compartilhei primeiro com os assinantes da newsletter em 14 de maio de 2026. Se você quiser recebê-las antes de todo mundo, assine aqui.
Até os dois anos e meio, meu filho pequeno nunca dormiu mais de duas ou três horas seguidas. E não estou falando de uma fase ruim. Estou falando de dois anos e meio.
Ao acordar, ele pedia contato: era preciso passeá-lo no colo. Se eu tentava sentar, ele chorava. E se chorava por muito tempo, às vezes acabava vomitando em si mesmo. Desde que parou de mamar, fazê-lo dormir era comigo, e no fim ninguém dormia em casa — exceto o irmão mais velho, que dorme como um anjo. Cheguei a ter meu próprio ciclo de sono em pedaços. Houve um momento em que, simplesmente, eu já não aguentava mais.
Conto isso porque hoje ele tem três anos e meio e há uns dois meses dorme a noite toda. Se alguém me lê de onde eu estive: há uma saída. Provavelmente não a que você imagina, mas há.
O ritual não se planeja: ele se molda sozinho
No caminho aprendi uma coisa que eu não esperava: a rotina de sono que de fato funciona quase nunca é a que você escolhe a frio, mas a que sobrevive às noites ruins, ao seu próprio esgotamento e aos meses em que nada parece dar certo. O que fica depois de tudo isso é a sua rotina real.
E por baixo de qualquer rotina há um mecanismo que não é o que costumamos imaginar. Uma criança não adormece só porque está cansada: o cansaço está lá, mas se o corpo continua em alerta ele não se solta. O que dá a ela permissão para se deixar ir é a repetição, o sinal de que o dia terminou. Quando os mesmos gestos acontecem na mesma ordem todas as noites, o corpo reconhece a sequência e começa a se soltar ainda antes de chegar à cama.
Para um sistema nervoso pequeno, o previsível é o seguro. E só a partir da segurança é que uma criança baixa a guarda e se deixa cair no sono.
É assim que a gente dorme em casa, sem alardes
O que ficou de toda a travessia é uma rotina pouco fotogênica. Você não vai vê-la recomendada em nenhum manual. Mas funciona pra gente, e agora todo mundo dorme. É mais ou menos assim, e nem sempre nesta ordem:
- Jantar cedo. Se o jantar atrasa, a noite se quebra. É a única coisa inegociável.
- Ir para o quarto. Ele brinca um pouco no tapete, quase sempre sozinho, enquanto eu fico por perto sem fazer muito barulho.
- Arrumar antes de apagar a luz. Aviso que já é hora, deixo ele arrumar sozinho e às vezes dou uma mãozinha. É o nosso sinal de que o dia está acabando.
- Mamadeira na cama e meu pescoço ao alcance. Ele adormece beliscando ele. Sim, ainda com mamadeira aos três e meio.

Sobre esse último ponto vou ser honesto, porque aqui é fácil se sentir julgado: a mamadeira nessa idade não é o que se aconselha, e eu sei disso. Mas a parentalidade real vai resolvendo as coisas por ordem de urgência, não pela ordem do manual. Dormir era a batalha; essa outra vai chegar a hora dela. Conto a rotina inteira, com a parte imperfeita incluída, justamente para não me juntar à coleção de rotinas idealizadas que fazem tanto mal quando você está no meio da tempestade.
Cada rotina é a rotina de alguém
Conto a minha justamente para que você não a copie. A sua terá outras peças: um bichinho de pelúcia, uma canção, uma cadeira de balanço, uma mão nas costas. Não importa qual. Importa que se repita, e que você esteja calmo quando acontece.
Isso último pesa mais do que parece. Não importa se você é a mãe, o pai, a avó ou o avô: para adormecer, não basta à criança que você esteja presente. Ela precisa também que você esteja calmo, porque o sistema nervoso dela se sintoniza com o seu. As noites em que eu chegava ao quarto com os nervos no limite eram, por acaso, as piores. Não era acaso.
E mais uma coisa, caso sirva de consolo: uma criança precisar de contato para adormecer não é um defeito a corrigir às pressas. Em boa parte do mundo dormir perto, em contato, é o normal e ninguém vive isso como um problema. O fato de a sua pedir isso não significa que falte algo a fazer. Significa, quase sempre, que ela é pequena.
Quando ele me pede uma história
Às vezes, já com a mamadeira e a luz apagada, ele me pede uma história. Nem sempre; também não é parte fixa do ritual. Quando pede, a gente lê juntos com o abajur aceso. Há uma que parece feita para esse momento exato: A Fada das Estrelas. O subtítulo dela diz melhor do que eu: «A magia de estar juntos». Fala exatamente disso: de uma fada que perde a varinha e descobre que as estrelas se acendem mesmo assim, porque o que realmente importava era o tempo de estar todos juntos cada noite. Que é, mais ou menos, o que eu demorei dois anos e meio para entender.

A Fada das Estrelas
A magia de estar juntos
Estrelinha é uma fada jovem que todas as noites reúne os animais da floresta para lhes contar uma história antes de dormir. Quando perde a sua varinha mágica e não consegue acender as estrelas, descobre que a verdadeira magia nunca esteve num objeto, mas no ritual de estar juntos todas as noites, nas suas palavras e no amor que partilha com a sua comunidade.
Ler esta história infantil na app SemillitaSe você quiser se aprofundar no porquê de tudo isso, eu conto com mais calma em por que importa mais o que você faz do que aquilo que usa e em o que fazer quando o ritual se quebra.
Um abraço, e muita força se hoje à noite calhar de ser uma das difíceis.
— Adrián, de Semillita




