Esta reflexão eu compartilhei primeiro com os assinantes da newsletter, em 1 de junho de 2026. Se você quiser recebê-las antes de todo mundo, assine aqui.
Estávamos no parque quando o meu filho caiu. Não foi uma das quedas aparatosas: os pés se enrolaram, ele bateu com os joelhos no chão e ficou um segundo naquele silêncio de que você já sabe o que vem em seguida. Depois desatou a chorar. E a primeira coisa que me saiu, quase antes de me agachar, foi: «não é nada, não chore, não foi nada».
Disse depressa, com a melhor intenção, como já tinha dito cem vezes antes. Mas naquela tarde, não sei por que, eu me ouvi. E caí em algo incômodo: não dizia isso por ele, dizia por mim, porque o choro dele me deixava nervoso e eu queria que parasse logo. A ele estava acontecendo algo sim: os joelhos ardiam e ele tinha se assustado. Minha frase não apagava nada disso. Só pedia que ele guardasse aquilo para si.
Pensei muito nisso depois, e é por isso que escrevo. «Não é nada» é uma daquelas frases que dizemos no automático e que, repetidas mil vezes, acabam ensinando algo que nunca quisemos ensinar.
O que o corpo diz antes das palavras
Antes de uma criança pequena saber explicar o que sente, o corpo dela já está dizendo isso a ela: o coração acelera e na garganta sobe aquele nó da vontade de chorar. Essa capacidade de notar o que se passa por dentro —os psicólogos chamam de interocepção— vai se afinando justamente nestes primeiros anos. É a base sobre a qual mais tarde se constrói todo o «saber o que está acontecendo comigo».
Quando respondemos a esses sinais com «não chore» ou «não é nada», não causamos um dano irreparável; as crianças são muito mais resistentes do que as nossas piores tardes. Mas, virado hábito, a mensagem que chega é estranha: aquilo que o seu corpo te diz não é de confiança. E para uma criança que aprende a ignorar o próprio alarme vai custar mais confiar nele no dia em que realmente importar.
Admito com honestidade: aqui a ciência fina é menos taxativa do que soa num texto bonito. Ninguém pode medir o efeito exato de uma frase solta num parque. O que é bastante claro é a direção: ajuda mais as crianças darmos palavras ao que elas sentem do que fingir que não sentem.
O que mudámos em casa (e o que ainda me escapa)
Não reinventamos nada. Só mudamos o reflexo. Em vez de cortar o choro, tento primeiro nomear o que vejo:
- «Vejo que você se assustou e que está doendo.» Antes de consolar, reconhecer. Às vezes basta para ele relaxar, porque se sente acompanhado em vez de corrigido.
- «O que você nota no corpo?» Com os menores é quase uma brincadeira: está coçando?, aperta aqui dentro? Dar um nome à sensação a torna mais fácil de lidar.
- Deixar o choro passar sem apagá-lo. Chorar é o jeito dele de soltar o susto, então eu acompanho em vez de brigar com ele. Curiosamente, desde que persigo menos que pare, ele para mais cedo.
- Guardar o «não é nada». Troquei por um «já passou, estou aqui», que é verdade e que não discute o que ele sente.
Faço sempre assim? De jeito nenhum. Quando estamos com pressa, ou estou cansado, ou me pega num momento ruim, ainda me escapa o velho «vai, não chore». Não me martirizo por isso. O que conta é o que eu faço na maioria das vezes, não acertar um roteiro perfeito.

A história que nos ajuda a falar disto
Tem uma história que a gente lê muito quando quero abrir essa conversa sem sermão: O que minha barriguinha está dizendo?. A Fanti, uma elefantinha, nota coisas estranhas na barriga e, em vez de alguém dizer a ela que não é nada, o papai dá tempo e espaço para ela escutar o que o corpo quer dizer. As crianças adoram porque fala de algo muito delas, esse notar a barriguinha por dentro. E para mim é a desculpa perfeita para perguntar a ele, num outro dia e sem queda no meio, o que ele nota quando alguma coisa o deixa nervoso.

O que diz a minha barriguinha?
A aprender a ouvir o meu corpo
Fanti é uma elefantinha bem no meio de uma brincadeira muito interessante quando começa a sentir uns ruídos e movimentos estranhos na barriguinha. Muito assustada, procura um cantinho reservado atrás do grande sofá de casa para tentar perceber o que está a acontecer e o que o seu corpo lhe quer dizer, enquanto o paciente Pai Elefante a acompanha com respeito, dando a Fanti todo o espaço e o tempo de que necessita, sem qualquer interrupção.
Ler esta história infantil na app SemillitaSe você quiser o porquê com mais calma e menos anedota minha, a gente explica tudo em detalhe em ensinar as crianças a ouvir o corpo.
Da próxima vez que o seu pequeno chorar por algo que para você parece pequeno, tente se segurar esse meio segundo antes do «não é nada». Muitas vezes, a única coisa que ele precisa ouvir é que você também vê que sim, está acontecendo alguma coisa com ele.
Um abraço, e paciência para os joelhos esfolados e os sustos que vierem.
— Adrián, da Semillita




