Ansiedade de separação na creche: o que é normal e o que não é

Madre agachada a la altura de su hija pequeña en la entrada de la guardería, despedida tranquila y consciente

Vocês chegam à porta da creche e, durante uns dois segundos, está tudo bem. Depois algo muda. Agarra-se à tua perna, esconde a cara, não te quer largar. E isto mesmo que já vá há semanas, mesmo que ontem tenha entrado sem choro, mesmo que já conheça a educadora de cor. A despedida volta a custar.

Como acontecia com a hora do banho, o que se vê à porta nem sempre é o que está realmente a acontecer. Para ele, esses minutos são uma transição a sério, e as transições, nesta idade, custam quase sempre mais do que entrar por uma porta e sair por outra.

O que é a ansiedade de separação, e porque aparece

É uma resposta esperada em crianças entre um e quatro anos, e um bom sinal de que o vínculo com a figura de referência funciona. Sabem que dependem de ti, procuram-te quando algo sai do conhecido, notam a tua ausência. Toda essa procura faz parte de como se sentem seguros no mundo.

O pico costuma estar entre os doze e os dezoito meses. Depois reaparece em momentos pontuais: começar a creche, mudar de sala, voltar após umas férias longas, a chegada de um irmão. Até aos três ou quatro anos esses ressurgimentos são habituais, e às vezes voltam mais tarde em formas diferentes. Não convém lê-los como retrocesso. Costumam ser o sistema a fazer o seu trabalho em momentos em que esse trabalho custa mais.

Convém ter presente que a criança que chora à porta não está a manipular nem a "fazer teatro". O seu cérebro emocional, que nesta idade vai à frente do racional, está a dizer-lhe que algo importante está a acabar. O teu argumento ("vais divertir-te, venho buscar-te depois do almoço") está certo, mas chega a uma conversa que já está a acontecer noutra língua.

O que entra no normal

Nesta idade, é esperado que possa:

  • Chorar ou ficar sério ao despedir-se, mesmo que depois brinque contente lá dentro. A educadora diz-te "passa-lhe logo assim que vais", e é verdade.
  • Ter fases estranhas. Duas semanas a entrar bem e, de repente, três dias a custar imenso, sem motivo claro. Às vezes há um gatilho (uma constipação, uma mudança de horário, uma visita), às vezes não.
  • A adaptação demora mais do que os cartazes dizem. Quinze dias é uma orientação. Há crianças que precisam de três semanas, outras de um mês, e isso não significa que a creche ou tu estejam a fazer algo mal.
  • Pergunte por ti durante o dia, mesmo que a educadora te diga que no geral está bem. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.
  • Repita comportamentos que já tinha superado: pedir mais colo, acordar de noite, não querer comer sozinho, querer voltar a dormir com um peluche que andava esquecido há meses. Estas regressões duram umas semanas e desaparecem sozinhas assim que está mais assente.

Nenhuma destas coisas, isolada, significa que algo esteja mal. Falam mais de uma criança a processar uma mudança grande com as ferramentas que tem à sua idade, que são as que são.

Como preparar a despedida antes da porta

A despedida não começa na creche. Começa antes, em casa, e constrói-se com repetição.

Ajuda muito nomear o que vai acontecer, com palavras claras e curtas. "Agora tomamos o pequeno-almoço, depois vestimo-nos, vamos à creche, brincas, comes, e eu venho buscar-te." Não lhe poupa o momento difícil, mas dá-lhe um mapa. Nesta idade um mapa pequeno, ainda que o repitas todas as manhãs, acalma mais do que qualquer explicação longa.

Junto a esse mapa convém ter um ritual de despedida próprio. Um beijo na mão e outro na bochecha, uma frase curta ("vemo-nos à saída"), um gesto que seja sempre o mesmo. O que transforma o gesto num sítio onde se agarrar não é o quão engenhoso é, mas que se repita. Tanto faz que seja elaborado ou parvo. O importante é que seja vosso e que aconteça sempre da mesma maneira, também nos dias bons.

A parte que mais custa é despedir-se sempre, também quando há choro. Esgueirar-se enquanto está distraído evita a cena nesse momento, mas ensina-lhe que podes desaparecer sem avisar. Da próxima vez, em vez de brincar tranquilo, vai estar atento a que não te vás embora sem ele ver. O choro na despedida é curto e acalma-se antes dessa vigilância, que pode durar dias.

E na recolha, outra cena que importa

Quase todo o foco dos conselhos sobre creche está posto na despedida, mas o reencontro pesa o mesmo. A forma como esse momento acontece todas as tardes é o que decide se a creche é vivida como um lugar onde te deixam ou como um sítio de onde também voltam a buscar-te. A segunda versão é a que sustenta tudo o resto.

Se chegas para o buscar e a primeira coisa que aparece é a lista de perguntas ("o que comeste?, com quem brincaste?, choraste?"), o mais provável é que se feche. Nesse momento concreto, o que ele precisa não é contar, é reconectar-se. Um abraço, dois minutos sem fazer nada, deixar-lhe escolher o ritmo da saída. As perguntas podem vir depois, a caminho de casa ou ao jantar, quando já está outra vez instalado contigo.

Outra coisa a que vale a pena ter atenção: ainda que tenhas pressa, não saíres da creche a correr. O percurso da sala até à porta, por curto que seja, é o primeiro bocadinho do dia em que volta a estar contigo. Como vive esses minutos fica-lhe na memória do dia mais do que quase tudo o que se passou lá dentro.

Criança pequena absorta a empilhar blocos de madeira numa creche depois da despedida

O que ajuda durante o dia

A maior parte do trabalho, durante a manhã, não a faz o adulto que deixou a criança à porta. Fá-la ele a partir de dentro, com o que tenha conseguido levar consigo. Por isso pesa tanto aquilo que o acompanha.

Um objeto-ponte (um peluche, um pedaço de tecido, uma pulseira que é da mãe ou do pai) funciona como um lembrete físico de que o vínculo continua ali, mesmo quando não estás à vista. Falaremos a fundo destes objetos no próximo artigo, porque há maneiras de os usar que ajudam e outras que atrapalham, e vale a pena distingui-las.

Às vezes basta um gesto no corpo e não é preciso um objeto. Um pequeno coração desenhado na palma da mão de manhã, que possa olhar quando precisar. Um beijo "guardado" no bolso, que se tira e se devolve à saída. Uma marca minúscula, repetida todos os dias, com um sentido partilhado que só vocês os dois entendem. O que conta não é o quão bonito é o gesto, mas que ele o conheça e o possa ativar sozinho, sem pedir autorização.

Há ainda outra coisa que parece menor mas pesa: uma rotina previsível dentro do espaço. Quanto melhor sabe o que vem a seguir (recreio, almoço, sesta, vêm buscar-me), menos energia gasta a vigiar o que não sabe. Essa parte não a decides tu de casa, mas decides quando escolhes a creche. É uma das coisas pelas quais vale a pena perguntar antes de inscrever, ainda que pareça um detalhe pequeno ao lado do preço ou dos horários.

Quando convém prestar mais atenção

A maioria dos episódios de ansiedade de separação resolvem-se sozinhos com tempo, repetição e um ritual de despedida estável. Mas há sinais que não convém normalizar:

  • O choro na despedida não cede nada passadas quatro ou seis semanas, e a educadora diz que demora muito a acalmar-se, ou não chega a fazê-lo de todo, durante a manhã.
  • Aparecem sintomas físicos que se repetem nos dias de creche e não aos fins de semana: dor de barriga, vómitos, dor de cabeça, alterações do sono que antes não existiam.
  • A angústia estende-se para além do momento da despedida. Recusa em ficar com qualquer outro adulto conhecido (um avô, um tio com quem antes ficava bem), medo intenso de estar em divisões diferentes da tua em casa, não poder dormir sozinho quando antes conseguia.
  • A creche ou a educadora detetam algo que não encaixa com o esperado para a idade, ou que há tempo não se mexe.

Isolados, estes sinais quase nada dizem. O que pesa é que apareçam juntos, que sejam intensos, e sobretudo que se prolonguem: o que persiste para lá da adaptação inicial pede uma conversa com a educadora, e se for preciso com o pediatra ou com um profissional de saúde mental infantil. Pedir ajuda a tempo evita, quase sempre, que um episódio pontual se instale.

E quando falares com a educadora, deixa de lado o "esteve bem hoje?" e vai ao concreto: quanto tempo demorou a acalmar-se depois da despedida, como o veem a meio da manhã quando já estás fora há um bocado, o que notam de diferente em relação ao início. Estas três perguntas juntas dão uma imagem mais fiel do que vinte detalhes soltos, e de passagem ajudam a equipa a observar melhor nos dias seguintes.

O que faz a mãe do Ursinho

Em O coração que mamãe me desenhou, Ursinho chega ao jardim num dia frio. A sala está diferente, há caras novas, o barulho e a luz também são diferentes. Agarra-se ao casaco da sua mãe, Mamãosa, e não a quer largar.

Mamãosa não lhe diz que não é nada. Não lhe promete que vai passar logo, nem lhe explica tudo o que vai fazer durante a manhã. Agacha-se até à altura dele, dá-lhe a mão e desenha-lhe um pequeno coração vermelho na palma. Dá-lhe um beijo por cima. Deixa-lhe, num sítio que ele pode olhar quando quiser, algo que é seu e que vem dela.

Ao longo da manhã, quando algo o sobrecarrega ou se sente longe, Ursinho olha para esse coração. Olha para ele ao pendurar o casaco. Olha para ele antes de se sentar à mesa. Olha para ele quando a educadora põe uma canção que ele não conhece. E de cada vez encontra um pouco mais de calma para voltar à brincadeira.

O que Mamãosa faz não resolve sozinho o momento difícil. Dá-lhe uma ferramenta concreta, simples, que ele pode ativar quando precisar, sem ter de pedir a ninguém. É assim que funcionam a maioria das coisas que funcionam nesta idade: o momento difícil não lhe é tirado, é acompanhado com algo concreto que ele pode usar.

O coração que a mamã me desenhou

O coração que a mamã me desenhou

Um presente que cabe na mão

Ursinho e a sua mamã, Mamãosa, chegam ao jardim de infância num dia frio. O barulho e o ambiente novo são avassaladores para Ursinho, que sente angústia ao separar-se e agarra-se ao casaco da sua mamã. Mamãosa, com muita ternura, desenha-lhe um coração vermelho na palma da mão e dá-lhe um beijo por cima. Esse pequeno gesto torna-se uma ferramenta que Ursinho usa ao longo do dia para encontrar calma e animar-se a brincar.

Ler esta história infantil na app Semillita

O coração na mão do Ursinho é o que alguns psicólogos chamam um objeto-ponte: algo concreto que sustenta o vínculo quando o adulto não está. No próximo artigo paramos nestes objetos (peluches, mantinhas, chuchas, pulseiras), olhamos para o que têm em comum os que funcionam bem, e como acompanhar o momento em que deixam de ser necessários.

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