Leva-o a todo o lado. Está descosido por um canto, falta-lhe uma orelha há meses, o tecido perdeu a cor nas zonas mais agarradas. Tentas lavá-lo e as horas em que está a secar são insuportáveis. Deixas em casa por engano e a manhã inteira desmorona-se. Aos adultos costuma parecer-nos um objeto. Para ele, não.
No artigo anterior falávamos da ansiedade de separação na creche e mencionávamos algo que muitas famílias usam sem terem pensado muito: um objeto ponte. O termo técnico é "objeto de transição", cunhado pelo pediatra e psicanalista britânico Donald Winnicott no início dos anos cinquenta, observando precisamente isso: o peluche, a mantinha, a pulseira da mãe que vai sempre por cima.
O que são
Um objeto de transição é algo — não importa muito o quê — que a criança escolhe (nós não o escolhemos por ela) e começa a usar para sustentar o vínculo quando a pessoa a quem está apegada não está à vista. Não é exatamente um brinquedo: com um brinquedo brinca-se um bocado e depois deixa-se. Este leva-se. Aparece sobretudo entre os seis meses e os dois anos, e muitas vezes fica até aos três ou quatro.
Convém desativar cedo duas ideias que circulam muito em redes e grupos de parentalidade. A primeira é a de que o peluche-fetiche é sinal de um apego mal construído ou de insegurança: a investigação disponível não sustenta essa leitura. A segunda, oposta e também demasiado taxativa, é a de que seria próprio de crianças com apego seguro: os estudos encontram objetos de transição tanto em vínculos seguros como menos seguros, e a presença ou ausência do peluche não funciona bem como indicador da qualidade da relação. É mais útil vê-lo como uma ferramenta que algumas crianças usam e outras simplesmente não precisam.
E antes de seguirmos, uma coisa que vale a pena mencionar porque às vezes se dá como garantida: os objetos de transição são muito mais frequentes em culturas com berços separados e rotinas de sono individual do que em culturas com colecho prolongado e parentalidade em proximidade contínua. Em partes da Ásia, América Latina ou África com esses padrões, as taxas observadas são notavelmente mais baixas. Se a tua filha ou o teu filho não se afeiçoa a nenhum, não significa que lhe falte algo: significa, quase sempre, que não precisa.
Por que funcionam
Nesta idade, entre o "tu estás aqui comigo" e o "tu não estás" ainda não há uma ponte cognitiva clara. Sustentar mentalmente, durante dez minutos, que a mãe ou o pai vão voltar, exige uma capacidade de representação que se está a construir agora. Entretanto, é preciso algo que ajude a sustentar essa função. Algo concreto, que se possa tocar, cheirar e apertar.
Por isso os objetos que melhor funcionam costumam ter uma textura e um cheiro reconhecíveis. "A mãe volta depois do almoço" é uma explicação correta, mas nessa idade o peso do peluche no braço faz mais do que a frase. O olfato, além disso, tem conexões diretas com o sistema límbico que ajudam a explicar por que uma peça com cheiro a mãe ou a pai acalma com tanta rapidez, ainda que a neurociência fina disto seja menos limpa do que se costuma ler na internet.
Quais funcionam, quais funcionam menos
Nesta idade quase qualquer coisa pode acabar convertida em objeto de transição se a presença de um adulto querido a carregou de sentido. Mas há formatos que funcionam mais fluidos do que outros:
- Peluches. Os clássicos, e por uma razão. Combinam textura macia, forma reconhecível, possibilidade de o carregar, abraçar ou pôr em posições diferentes. Ajuda que tenha um nome desde cedo.
- Mantinhas, panos, "tags". A muitas crianças interessa mais o material do que a forma: uma mantinha de algodão fino, um pedaço de tecido do berço, as etiquetas cosidas de um peluche concreto. A textura é a âncora.
- Uma peça com cheiro a mãe ou a pai. Uma t-shirt dormida, um lenço, uma camisola usada. Costumam funcionar especialmente bem para o início da creche e para noites difíceis.
- Uma pulseira ou corda partilhada. Uma pulseira que a mãe usa igual durante o dia, ou uma cordinha que os dois atam de manhã. Pequena, portátil e pouco aparatosa para levar para a creche.
- A chucha. Cumpre muitas funções de um objeto de transição, especialmente para adormecer. É um caso à parte pelos seus efeitos sobre a boca e os dentes a partir dos dois ou três anos: se está todo o dia metida, convém rever com o pediatra ou o odontopediatra.
Os que funcionam pior costumam ser os demasiado grandes, demasiado frágeis ou carregados de eletrónica. Um peluche que não cabe na mochila acaba por ficar sempre em casa e perde a sua função. Um objeto com luzes e sons satura em vez de acalmar. Um livro ou um tablet não são objetos de transição; são entretenimento.
O que têm em comum os que funcionam bem
Três traços quase sempre presentes:
- Escolhe-o a criança, não nós. Podemos pôr candidatos ao alcance, mas a escolha fá-la ela. Se insistirmos num que não escolheu, em geral não chega a carregar a função.
- É acessível e portátil. Cabe numa mochila, sobrevive a uma ida ao parque, pode segurar-se com uma mão enquanto a outra faz outra coisa.
- É dela. Não se lhe tira para dar a um primo de visita nem se troca "por um novo mais bonito". A propriedade sem discussão é parte do que o transforma nisso.
E há um quarto traço que só se aprecia com o tempo: aguenta o desgaste. Um peluche visivelmente gasto está a fazer o seu trabalho, e quando tentamos substituí-lo por um idêntico novo, muitas vezes a criança rejeita-o com razão. Não é o mesmo.

Lavá-lo, perdê-lo, duplicá-lo: as perguntas frequentes
Três situações que aparecem em quase todas as casas:
Como se lava sem que se monte um drama? Com a frequência justa, não mais. Aproveitar momentos em que sabes que não vai procurá-lo (enquanto está fora com os avós, por exemplo). Lavagem a frio ou à mão se o tecido for frágil. Secagem rápida, e devolvê-lo quando volta sem fazer cerimónia. Se perguntar, dizer a verdade simples: "estava sujo, lavei-o, aqui está".
Vale a pena ter um "duplo" para o caso de se perder? Sim, se for possível. Comprá-lo cedo (antes de o primeiro já estar muito diferente) e rodá-lo de vez em quando para que envelheçam em paralelo. Ter dois não significa enganar a criança: a maioria distingue perfeitamente "o mais usado", mas aceita ambos como seus se cresceram juntos. Não é garantia absoluta, mas poupa muitas crises.
E se o perdemos sem duplo? Acontece. A reação inicial pode ser forte, sobretudo se o objeto era central para dormir. O que ajuda: não minimizar a perda ("não faz mal, compro-te outro" não funciona nesse momento), permitir o luto, e oferecer um objeto ponte novo — não como substituto do antigo, mas como algo distinto que pode acompanhar enquanto a perda se processa. Muitas vezes, semanas depois, o novo carregou já a sua própria história.
Quando o objeto deixa de ajudar e começa a atrapalhar
A maioria das relações com objetos de transição é saudável e resolve-se sozinha com o tempo. Mas há sinais que não convém normalizar, sobretudo a partir dos quatro ou cinco anos. Alguns sobrepõem-se a critérios reconhecidos de ansiedade de separação; outros são bom senso clínico:
- A dependência é crescente em vez de decrescente. Aos quatro anos precisa do objeto em momentos em que aos dois não precisava (comer, brincar com outras crianças, falar com um adulto conhecido).
- Interfere de forma habitual no quotidiano: não come se não o tiver na mão, não participa numa atividade nova sem ele, não suporta separações curtas.
- O uso é muito ansioso, não tranquilizador: agarra-se com força, acelera-lhe a respiração quando não o encontra, não se distrai facilmente com outra coisa quando está bem.
- Aparece junto com outros sinais de angústia mais geral: novos problemas de sono, medo intenso da separação para lá do esperável à sua idade, retraimento social.
Isolados, nenhum destes sinais diz quase nada. Combinados e mantidos no tempo, sim — merecem uma conversa com o pediatra ou com um profissional da saúde mental infantil. Não se trata de alarmar: é informação útil sobre como a criança está sustentada por dentro.
Como acompanhar o momento em que deixa de ser preciso
A maioria dos objetos de transição vai-se retirando sozinha, sem cerimónia. Aos três, quatro ou cinco anos a criança começa a esquecê-lo no sofá, a não procurá-lo antes de dormir, a levá-lo só em momentos pontuais. Essa retirada gradual é a saudável. Não convém apressá-la.
O principal é não retirá-lo por decisão nossa. Tirá-lo de um dia para o outro "porque já é crescido" costuma ter o efeito contrário e reativa a necessidade. A retirada decidida pelo adulto costuma custar mais do que a espontânea.
Se aos quatro anos o peluche é claramente algo para dormir e para os momentos difíceis, basta deixá-lo aí. Não é preciso moralizar nem pedir-lhe que o "largue". Que viva na cama tranquilamente.
E, quando chega o momento, convém permitir um fecho. A muitas crianças, quando deixam de precisar do objeto, faz-lhes bem saber que está "guardado num sítio bonito" em vez de deitado fora ou dado. Uma caixa no armário, uma prateleira alta. Saber onde está, ainda que já não o usem, faz parte do fecho.
O que faz a mãe do Ursinho
Em O coração que mamãe me desenhou, Mamãosa faz algo muito parecido com dar ao Ursinho um objeto de transição, mas com uma volta: em vez de um peluche, deixa-lhe um pequeno coração vermelho desenhado na palma da mão. Sem peluche, sem mantinha, sem tecido.
O coração funciona pelas mesmas razões que um bom objeto de transição. É concreto: pode olhar para ele. Está sempre disponível: não se pode perder. É portátil: vai com ele a todo o lado. E carrega o sentido do vínculo, porque o desenhou ela. Tem inclusivamente uma vantagem sobre o peluche: não fica esquecido no sofá. Quando o Ursinho precisa, abre a mão.
Não é um substituto do peluche. É outra forma da mesma coisa. A algumas crianças um gesto no corpo funciona melhor do que um objeto físico; a outras, ambos.

O coração que a mamã me desenhou
Um presente que cabe na mão
Ursinho e a sua mamã, Mamãosa, chegam ao jardim de infância num dia frio. O barulho e o ambiente novo são avassaladores para Ursinho, que sente angústia ao separar-se e agarra-se ao casaco da sua mamã. Mamãosa, com muita ternura, desenha-lhe um coração vermelho na palma da mão e dá-lhe um beijo por cima. Esse pequeno gesto torna-se uma ferramenta que Ursinho usa ao longo do dia para encontrar calma e animar-se a brincar.
Ler esta história infantil na app SemillitaDepois dos rituais diários — despedida à porta, objeto ponte no bolso — há um momento do ano que junta tudo isto num só: o regresso às aulas. No próximo artigo olhamos para a mochila emocional com que chegam em setembro, o que entra no esperado e o que ajuda a que esses primeiros dias pesem menos para todos.




