O último dia de escola tem algo de festa que acaba e algo de despedida. A criança volta com a mochila meio vazia, um desenho amassado e uma mistura estranha de euforia e cansaço. E nessa mesma noite, quando finalmente não há madrugada no dia seguinte, não adormece. Vira-se de um lado para o outro, pede água, levanta-se duas vezes. Começam as férias e, contra todas as expectativas, dorme pior do que em maio.
Se te soa familiar, não é culpa tua nem sinal de que algo esteja mal. É um dos efeitos menos falados do fim do ano letivo, e tem uma explicação bastante clara.
O cansaço que não se vê
As crianças terminam o ano esvaziadas. Durante meses sustentaram as madrugadas, as regras, os estímulos e a exigência social de estar todos os dias entre muitas outras crianças. O corpo aguenta enquanto há uma estrutura que o sustenta. Quando essa estrutura desaparece quase de um dia para o outro, solta tudo o que vinha a acumular.
Às vezes isso vê-se em forma de choro fácil, de birras que pareciam ultrapassadas ou de um sono agitado durante duas semanas. É melhor não o ler como um retrocesso; parece-se mais com uma descarga — o equivalente infantil daquele cansaço que nós, adultos, só notamos quando finalmente paramos.
Porque é que o sono se desregula precisamente agora
O que chama a atenção é que o desajuste aparece no início das férias, antes mesmo de o verão se instalar. Várias razões coincidem ao mesmo tempo:
- A estrutura cai de uma só vez. A escola marcava o dia inteiro: a hora de levantar, a das refeições, os blocos de atividade. Quando tudo isso desaparece em vinte e quatro horas, o relógio interno da criança fica sem sinais horários e demora uns dias a recalibrar-se.
- Há mais luz e mais calor. Com o verão, anoitece muito mais tarde. O corpo continua a receber a ordem de que "ainda é de dia" até bem tarde, e o calor das primeiras noites fragmenta o sono mesmo que a criança esteja exausta.
- Sobra emoção e falta do cansaço bom. As primeiras férias trazem sobre-excitação: planos, primos, ecrãs que se soltam, horários que se esticam. E, ao mesmo tempo, costuma haver menos gasto físico ordenado do que o do recreio e dos trajetos do dia a dia.
- Mesmo quando a mudança é boa, continua a ser uma mudança. Para uma criança pequena, qualquer transição põe algo em movimento por dentro, mesmo quando vai ao encontro do que deseja. O corpo demora a acreditar que agora é outra coisa.
O que ajuda nas primeiras semanas
O essencial é perceber que esta é uma fase de aterragem, não o verão definitivo. Não é preciso corrigir nada à força; é preciso acompanhar enquanto o corpo encontra o seu novo ritmo.
Deixa-o dormir a mais durante uns dias. Se recuperar horas, dá-lhas. A quebra do fim do ano paga-se a dormir, e uma criança que arrasta meses de madrugadas precisa dessa margem para esvaziar o cansaço.
Sustenta o fecho da noite mesmo que a hora dance. Mantém a história e a despedida do dia mesmo que se deite mais tarde. Essa sequência reconhecível é o sinal que diz ao corpo que o dia está a acabar, mesmo quando tudo o resto se mexeu.
Não enchas a agenda de uma só vez. Depois de meses a todo o gás, a criança precisa de dias sem plano. O tédio das primeiras férias é terapêutico: deixa espaço para abrandar.
Cuida da última hora do dia. Baixar o estímulo e a luz no troço final ajuda o corpo a perceber que é de noite, mesmo que lá fora ainda esteja claro. Não se trata de escurecer tudo, mas de passar do "modo dia" para o "modo noite" com alguma suavidade.
E, sobretudo, dá-lhe tempo. A maioria destes desajustes resolve-se sozinha numa ou duas semanas, quando o corpo se habitua à nova forma do dia. Se passado esse prazo continuar a dormir mal de forma evidente, aí sim vale a pena olhar com mais calma para o que se passa.
E aqui é preciso ser honesto com a evidência
Como quase tudo o que rodeia o sono infantil, algumas destas peças estão bem estudadas e outras menos. Que a luz da tarde e o calor piorem o descanso está bastante demonstrado, também em crianças pequenas, particularmente sensíveis à luz das últimas horas. Que perder de repente os horários desregule o relógio interno encaixa no que se sabe do sono em férias, ainda que boa parte tenha sido medida em crianças mais velhas do que as de Semillita. E o "cansaço de fim do ano" é sobretudo o que observam as famílias e as consultas, mais do que algo confirmado em laboratório. Nada disto é para alarmar: se o teu filho dorme um pouco pior nestes dias e de resto está bem, o mais provável é que o corpo se reajuste sozinho.
E depois, o longo verão
Passada essa primeira fase de aterragem, chega a pergunta de fundo das férias: é preciso manter as rotinas a todo o custo, ou podem soltar-se sem culpa? É um tema em si mesmo —separar o que realmente ancora o teu filho do que é apenas o relógio— e vamos dedicar-lhe muito em breve o seu próprio artigo.
Um ritual que aguenta a desordem
Quando as primeiras noites de férias se desregulam, ajuda ter um ritual que não dependa da hora nem do sítio. Em Obrigado por hoje, o fecho do dia não é deitar-se a uma hora exata, mas ir-se despedindo das coisas uma a uma até o corpo deixar de resistir. Funciona na sua cama, em casa dos avós ou numa noite de verão que se alongou demais — que é exatamente o que precisam nestes dias em que nada está ainda no seu lugar.

Obrigado por hoje
Uma história de boa noite
Bolota é um pequeno esquilo cheio de energia que, à hora de dormir, sente que os seus brinquedos ainda precisam dele para continuar a brincar. Em vez de lhe pedir que pare, a Avó Esquilo propõe um pacto especial: dar as boas-noites a cada um, recordando o quanto se divertiram juntos durante o dia. Aos poucos, Bolota descobre que cuidar dos seus brinquedos é também uma forma de cuidar de si próprio.
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