Meu filho não quer experimentar nada novo

Niño de unos tres años sentado a la mesa mirando de reojo un trozo de verdura en su plato sin tocarlo

Até uns meses atrás ele comia o que você pusesse no prato. Agora empurra o prato assim que vê alguma coisa que não reconhece, e empurra antes de tocar, às vezes antes até de cheirar. Você acaba fazendo dois jantares: o da família e as quatro coisas que ele aceita.

E ainda tem alguém para dizer que, se você faz outra coisa para ele, está mal-acostumando.

Isto vale principalmente para crianças de dois a seis anos, que é quando aperta.

Acontece com quase todas e tem nome

Chama-se neofobia alimentar: a recusa dos alimentos novos, dos que ele não reconhece. Vale prestar atenção nessa palavra, porque muda bastante a conversa. Seu filho não parou de comer: ele continua comendo, e às vezes bastante, aquilo que já está na lista dele. O que ele recusa é o desconhecido.

Costuma aparecer por volta de um ano e meio ou dois anos, aperta entre os dois e os cinco ou seis, e vai afrouxando depois. Acontece com muitíssimas crianças e coincide com a idade em que a criança começa a circular sozinha pela casa e a levar tudo à boca, então costuma ser lida como um filtro de precaução que aparece bem na hora em que faz falta. É uma interpretação que encaixa bem; não está demonstrada, e para o que você tem que fazer amanhã também não muda nada.

Em cima da fase tem mais uma camada, que é o temperamento. Existem crianças que já vêm mais abertas ao novo e crianças que já vêm mais cautelosas, na comida e em todo o resto, e isso estava lá antes de você fazer qualquer coisa. Por isso dois irmãos criados na mesma cozinha podem sair completamente diferentes.

As duas coisas juntas são a resposta àquela história de mal-acostumar: a fase vai passar e o temperamento não foi você que deu. O que você pode fazer é acompanhar, que é do que trata o resto do texto. O que não funciona é tentar acelerar na base da insistência.

Experimentar não é comer

É aqui que a mesa relaxa de verdade. A gente parte do princípio de que o objetivo é ele engolir, e com isso pula tudo o que vem antes.

Ver o alimento na mesa várias vezes. Ver você comendo. Aguentar ele no próprio prato sem empurrar. Tocar, cheirar, chupar, morder e cuspir. Tudo isso já é aproximação. Não é uma escada que se sobe em ordem, e as crianças pulam degraus e voltam atrás o tempo todo. Olhar só para a mordida deixa de fora quase tudo o que está acontecendo, como se a gente desse um idioma por perdido porque a criança ainda não fala frases.

Menina de uns quatro anos dobrando uma vagem perto do ouvido para escutar o barulho que ela faz

O que colocar na mesa hoje à noite

O novo em porção pequena, do lado do que ele come. Um prato inteiro de coisas desconhecidas é uma cilada; um prato com o de sempre e uma novidade pequena num canto, não. Ter garantido que vai comer alguma coisa é justamente o que deixa ele se aproximar do resto.

Sem anunciar e sem olhar de canto de olho. Nada de "prova só um pouquinho" nem "viu que gostoso?" nem cara de expectativa. Está ali, de novo, como esteve na terça. Isso é mais difícil do que parece, porque o que dá vontade é olhar.

Os dois jantares, na mesma mesa. Se você cozinhar separado para ele, que pelo menos coincida: o macarrão dele e a lentilha de vocês ao mesmo tempo e à vista. O que sai caro não é fazer duas comidas, é o jantar dele viver em outro horário e em outro cômodo, porque aí ele para de ver comida nova na frente. Cozinhar à parte com a mesa compartilhada continua valendo.

Se ele quase não tocou no jantar, o jantar acaba do mesmo jeito. Sem fazer um segundo prato às nove e meia e sem negociar um iogurte, mas sem drama também. A próxima refeição chega na hora dela, não cinco minutos depois como prêmio de consolação. Você decide o que vai à mesa e quando; quanto disso entra quem decide é ele. E se seu filho for pequeno, comer muito pouco ou o peso dele te preocupar, isso é das primeiras coisas para conversar com o pediatra antes de segurar essa linha.

E com o que sobra, seja realista. Oferecer muitas vezes sai caro se toda noite você joga um prato inteiro fora. Coloque uma quantidade ridícula: um pedacinho, meia colher. O que conta é estar ali na frente dele, não a quantidade, e assim o desperdício fica suportável.

O que costuma complicar

Uma ressalva antes da lista, porque é fácil sair daqui com a culpa nas costas: quase ninguém faz essas coisas por gosto. Faz porque a criança não come e a gente se desespera, então em muitas casas a pressão é tanto consequência do problema quanto causa. Dito isso, são as que mais cristalizam a situação.

A sobremesa como moeda. "Se você comer três pedaços, tem iogurte." Funciona naquela noite, e no longo prazo costuma reforçar a ideia de que o verde é o pedágio e o iogurte é o prêmio. Com nuances: premiar com algo que não seja comida — um adesivo, uma brincadeira — por experimentar sem obrigação de engolir parece funcionar com algumas crianças. O que dá errado é pagar comida com comida.

Comer para agradar alguém. "Uma pela mamãe, uma pela vovó." Deixa de ter a ver com o corpo dele e vira prova de afeto.

Insistir depois que ele já disse não. Cada nova investida sobe a tensão da mesa, e a tensão acaba grudando no alimento discutido. Parece bastante com o que acontece na hora de deixar a fralda: apressar de fora costuma atrasar justamente aquilo que se quer adiantar.

A mesa inteira opinando. Você pode ficar quieto, mas se tem três adultos comentando o que ele come, o efeito é o mesmo. Isso se combina antes, entre os adultos e sem ele por perto, porque é a parte que não depende da sua técnica e sim de um acordo.

O que ajuda no longo prazo

Que ele veja você comendo. Sem cerimônia e sem ficar olhando à espera de reação. É das coisas mais lentas que existem e das que mais se repetem nas casas onde a lista da criança acaba crescendo.

Tirar o alimento da mesa. Lavar, descascar, cortar, levar a travessa. É programa de fim de semana, não de uma terça às nove da noite, e um alimento que ele já pegou na cozinha chega ao prato menos estranho.

Deixar que ele se sirva. Mesmo que coloque duas ervilhas. Se servir é uma decisão dele, e o que ele decide não precisa ser defendido.

Repetir sem contar as vezes. Vai ser preciso oferecer muitas vezes, mais do que qualquer um diria: pense em semanas, não em tentativas. O número exato que circula por aí não quer dizer grande coisa, porque muda com cada criança e cada alimento.

Cuidado com o rótulo. "Esse aí não come nada", dito na frente dele, acaba virando a descrição que ele faz de si mesmo, e depois custa mudar.

Quando olhar mais de perto

A neofobia típica é escandalosa e faz o que quer, mas a criança come o suficiente e cresce bem. Vale comentar com o pediatra se você notar alguma destas coisas:

  • A lista do que ele aceita vai encurtando com os meses em vez de crescer. Se você escrever contando item por item (cada fruta, cada formato de macarrão) e mesmo assim ela ficar bem curta, conte isso ao pediatra.
  • Ele eliminou grupos inteiros: nenhuma fruta, nada de carne, peixe, ovo nem leguminosas.
  • Não ganha peso, parou de crescer no ritmo que vinha, ou você percebe cansaço, palidez ou prisão de ventre persistente.
  • Tem ânsia de vômito repetida com muitos alimentos, engasga ou sente dor ao comer.
  • A recusa começou de repente depois de um engasgo ou de um vômito específicos.
  • A comida gera angústia de verdade nele, ou as refeições viraram uma batalha diária que mudou a vida da família.
  • Vem junto com a fala que não engata, com pouco interesse por outras crianças ou com sensibilidades fortes fora da mesa.

Essas coisas estão na lista porque algumas podem, sim, significar que há algo mais. Marcar consulta não quer dizer que haja: quer dizer que tem coisa que só se vê pesando, medindo e examinando, e isso de casa não dá para fazer.

Uma história em que ninguém pede para ele comer

Entre as nossas histórias tem uma que fala exatamente disso. Em O Croc Verde, Nuvenzinha está comendo o purê de sempre quando a mãe deixa ao lado da tigela um palitinho verde que ela nunca viu. Nuvenzinha empurra o palitinho com a patinha e vira o rosto.

O interessante é o que a Mamãe Coelha faz, que é quase nada. Não insiste, não explica como aquilo é saudável e não pede para ela experimentar. Pega o palitinho, olha como se fosse um achado esquisito e propõe outra coisa: tocar, cheirar e escutar. O purê de sempre continua ali do lado, quentinho, o tempo todo.

E atenção a uma coisa, porque é a armadilha de ler isso numa história: ali cabe em cinco minutos o que numa cozinha de verdade leva meses. Propor uma brincadeira com o alimento funciona quando não há nada em jogo; no dia em que você propuser esperando que ele acabe comendo, seu filho vai perceber e a gente volta para a negociação.

É para os pequenos de dois e três anos. Leia sem transformar a história num recado sobre o jantar.

O Croc Verde

O Croc Verde

Aventuras no prato

A Nuvenzinha é uma coelhinha curiosa que adora o seu puré branco de sempre: mole, morno, conhecido. Um dia, ao lado da tigela aparece um pauzinho verde comprido e fino que ela nunca tinha visto, e afasta-o desconfiada. Então a Mamã Coelha propõe algo diferente de comer: brincar às exploradoras e descobrir aquele pauzinho com os sentidos, sem pressa e sem obrigação.

Ler esta história infantil na app Semillita

No próximo post: o que fazer quando a torre cai bem antes de ficar pronta e ele derruba tudo com um tapa.

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