Como conversar com seu filho sobre o corpo, os segredos e os limites dele sem assustar

Niño de unos cuatro años en pijama contándole algo a su padre en el sofá mientras él le escucha con atención

No banho, ele aponta para o meio das pernas e pergunta como se chama isso. E você se ouve dizendo "pipi", ou uma palavra da sua própria infância que você nem sabe de onde saiu. Se a pergunta fosse sobre o cotovelo, você nem teria pensado duas vezes.

Falar do corpo com uma criança pequena, e do que ela pode contar para você, soa como uma conversa séria que dá medo de começar. Na prática, isso se faz aos poucos, com frases curtas que se repetem na hora do banho ou de trocar de roupa, e a primeira é a resposta àquela pergunta.

O que responder na hora do banho

O mesmo que você diria se fosse o cotovelo: pênis, vulva, testículos, nádegas. Com a mesma voz, e sem correr para mudar de assunto. Se você já disse "pipi", não tem problema: na próxima vez, diga também como se chama de verdade.

Com as meninas, é comum dizer "vagina" para tudo, mas o que se vê por fora é a vulva; a vagina é o canal de dentro.

A Academia Americana de Pediatria recomenda ensinar os nomes corretos de todas as partes do corpo, inclusive os genitais, porque usar apelidos para essas partes pode passar a ideia de que elas têm algo de errado. Existe ainda um motivo prático: com a palavra certa, uma criança consegue explicar que arde quando faz xixi ou que alguém tocou nela ali, e quem escuta entende sem precisar adivinhar. Os apelidos de casa não precisam desaparecer; basta que ela conheça também o nome de verdade.

Se der vergonha, diga essas palavras em voz alta algumas vezes, sem ninguém por perto; logo, logo elas soam como outras quaisquer.

O que a roupa de banho cobre é íntimo

Uma criança pequena entende bem esse limite: as partes que a roupa de banho cobre são íntimas. Em casa, dá para dizer assim: "Essa é a sua parte íntima. Ninguém toca nela nem tira foto, e ninguém pede para você tocar ou olhar a de outra pessoa, nem numa tela". Não precisa dizer tudo no mesmo dia.

É bom que a regra já inclua as exceções que ele vai encontrar pela frente; senão, a primeira ida ao pediatra desmente tudo: "Quem cuida de você, como eu, pode te ajudar a se lavar, e o médico te examina comigo do lado. Isso é para cuidar de você". E termine sempre do mesmo jeito: se alguém tocar ali e ele não entender por quê, ou se alguma coisa der uma sensação esquisita, ele pode te contar.

O "não" dele também começa a valer em casa: se ele diz "para" no meio das cócegas, você para, mesmo que ele esteja rindo.

Nessa idade é muito comum a criança mexer nas próprias partes íntimas, às vezes na frente de outras pessoas, e ter curiosidade pelo corpo de outras crianças. O mesmo guia da Academia coloca isso entre o que é normal e frequente dos dois aos seis anos. Não precisa dar bronca. Basta uma frase: "O seu corpo você pode tocar, mas isso a gente faz sozinho, no quarto". Se você pegar ele brincando de médico com outra criança da mesma idade, a mesma coisa: sem drama, lembre a regra e proponha outra brincadeira.

Já a brincadeira em que uma criança obriga a outra, que imita atos sexuais de adultos, que machuca ou que ele não consegue largar mesmo quando você propõe outra coisa merece uma conversa com o pediatra, assim como a que acontece entre crianças de idades ou tamanhos muito diferentes.

Assim ele aprende que íntimo não quer dizer feio. E também não quer dizer segredo.

Como explicar a diferença entre surpresa e segredo

Dá para explicar pelo tempo que dura. Uma surpresa a gente guarda um pouquinho e depois conta, e quando conta, todo mundo fica feliz. Todo o resto cabe numa frase: "Se alguém pedir para você não me contar alguma coisa, você pode me contar mesmo assim, e nunca vai se meter em encrenca por causa disso".

Essa regra importa tanto por causa do que explica o guia da Academia para prevenir o abuso sexual infantil: quem abusa de uma criança costuma ser alguém que ela conhece, usa as palavras com mais frequência do que a força e muitas vezes pede para ela não contar. Por isso a regra é dita desse jeito, valendo para todo mundo, inclusive para as pessoas que ela ama e para as crianças mais velhas. O porquê é para você, para não abrir exceção com ninguém; seu filho não precisa saber.

"Não conta para a mamãe que eu te dei chocolate" é inofensivo, mas ensina que às vezes um adulto pede para ele não contar alguma coisa. É fácil transformar isso com um "depois a gente conta para a mamãe", e pronto, virou surpresa. Se quem faz isso é o avô, dá para falar com ele do mesmo jeito, como uma regra da casa e sem desconfiar de ninguém.

Uma lista de adultos para quem contar

Menina de uns cinco anos contando alguma coisa para uma senhora que a escuta com atenção na mesa da cozinha

Pergunte para quem ele contaria uma coisa que o preocupa e façam a lista juntos: algumas poucas pessoas concretas, com nome e rosto.

É bom que nem todas sejam de casa. O mesmo guia lembra que muitas crianças demoram para contar algo assim, e que, quando contam, nem sempre é para os pais. Não leia isso como um veredito sobre você; é o motivo para ele ter mais de uma porta. Pode ser a professora dele ou uma avó que não more com vocês.

E diga que, se ele contar para um adulto e esse adulto não der bola, é para contar para outro.

Falar disso vai deixar ele com medo?

O que já foi medido indica que não. A Cochrane, uma rede de pesquisadores que reúne e resume os estudos sobre uma mesma pergunta, revisou os programas de prevenção nas escolas: as crianças saíam sabendo mais, e nos estudos que mediram a ansiedade e o medo delas, não se observou aumento. Eram alunos do ensino fundamental e médio, em sala de aula e com profissionais, então, para a hora do banho em casa, é uma pista razoável.

Dito do mesmo jeito que você diz que na rua a gente anda de mão dada, sem baixar a voz, é só mais uma regra. E não precisa falar de gente má em momento nenhum.

Nenhuma conversa torna uma criança de quatro anos responsável por se proteger. Isso é trabalho dos adultos, e se um dia acontecesse alguma coisa, a culpa não seria do jeito como você explicou.

Se um dia ele te contar alguma coisa

Quase tudo o que ele te contar vai ser pequeno: que um menino deu um empurrão nele no parquinho ou que alguém riu do desenho dele. O jeito como você recebe essas coisas vai ensinando a ele o que acontece quando ele te conta algo. Se o que ele recebe é bronca, aprende a ficar quieto, como acontece quando ele confessa uma travessura.

O que é sério, nessa idade, muitas vezes não chega como um relato organizado. Vem pelas beiradas e aos pedaços, no carro ou no banho, e às vezes ele volta atrás depois; voltar atrás não significa que era mentira. Se o que ele contar for sério, ou se você não souber se é:

  • Mantenha a expressão tranquila, mesmo que por dentro você não esteja. Ele está observando como você reage.
  • Agradeça e diga que acredita nele: "Que bom que você me contou. Eu acredito em você, e a culpa não é sua".
  • Pergunte pouco. Um "e o que aconteceu?", e deixe ele falar. Evite as perguntas que já trazem a resposta, como "o fulano tocou em você?", porque nessa idade elas podem acabar virando parte do que ele conta. Também não peça para ele repetir tudo para outros parentes, nem volte a perguntar dias depois.
  • Não prometa guardar segredo. Diga que você vai contar para quem pode ajudar.
  • Não fale com essa pessoa nem tire satisfação com ela, e, enquanto isso, não deixe seu filho sozinho com ela.
  • Anote o que ele disse, com as palavras dele, e também o que você perguntou e quando.

Peça ajuda no mesmo dia: ao pediatra, aos serviços de proteção à criança ou à polícia. Se você não sabe para quem ligar, procure a linha de ajuda à infância do seu país. Se houver risco imediato, ligue para a emergência, e se o contato foi recente, leve seu filho direto ao pronto-socorro, sem dar banho nele nem lavar a roupa dele.

Não espere ter certeza. Descobrir o que aconteceu não dá para fazer de casa, e não cabe a você.

Uma história com um beliscão que avisa

Na Adaptação de Chapeuzinho Vermelho da Semillita não tem lobo. A caminho da casa de Nana Yewande, Amara encontra uma cordeirinha que chora porque perdeu uma coisa longe da trilha. Amara vai atrás dela, sente um beliscão na barriga e volta para a trilha, mesmo com a cordeirinha jogando na cara dela que ninguém nunca fica para ajudar. A única coisa que a cordeirinha usa é a pena que desperta.

Quando chega, Amara conta para Nana tudo o que sentiu, inclusive a dúvida: e se a cordeirinha precisasse mesmo de ajuda? Nana não dá bronca nem enche Amara de perguntas. Diz que entende que doa ter deixado a cordeirinha, e que aquele beliscão era o próprio corpo cuidando dela: "Quando você sentir isso, pode parar. Sempre".

Na história, a cordeirinha é alguém que Amara acabou de conhecer. Na hora de conversar sobre isso em casa, é bom acrescentar que esse "sempre" serve também com as pessoas que seu filho conhece, e que a regra da roupa de banho vale mesmo quando ele não sente nada esquisito. É para crianças de quatro e cinco anos.

Adaptação d'O Capuchinho Vermelho

Adaptação d'O Capuchinho Vermelho

O beliscão que avisa · Quando o corpo fala, é preciso ouvir

Amara é uma menina corajosa que aprende a ouvir os sinais do seu próprio corpo. No caminho para a floresta, encontra uma cordeirinha que parece triste e precisa de ajuda, colocando-a perante o grande desafio de confiar no seu instinto somático acima da compaixão social. Mas a história não termina com a decisão: termina com o relato, com a confiança de o contar a alguém.

Ler esta história infantil na app Semillita

No próximo post: como explicar para uma criança de três anos o que é pedir permissão, e por que o "não" dos outros também conta.

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